Breve História da Ópera
Primeira Parte
Nos tempos medievais, o acompanhamento musical fazia parte de todas as peças teatrais, e também era usado pelos trovadores como um arranjo para suas óperas pastoris, dentre as quais podemos destacar "Le Jeu de Robin et de Marion" de Adam de la Halle. Mas a forma da ópera que se desenvolveu e se transformou no drama musical de nossos dias, surgiu em Florença no final do Renascimento, devido aos esforços de um grupo de nobres florentinos conhecidos como a "Camerata". A primeira obra, entitulada "Dafne", de Peri e Rinuccini, foi composta em 1594.
Caccini contribuiu também com alguns números musicais para essa obra, e no mesmo ano arranjou todo o libreto para uma partitura própria. Mas como "Dafne" foi perdida, na realidade a primeira ópera foi "Eurídice", escrita pelos mesmos compositores para as bodas de Henrique IV e Maria de Médicis, em 1600. O principio fundamental sobre o qual foi escrita esta ópera era que o desenrolar dramático e a interpretação tiveram o mesmo tratamento de importância. Com o surgimento da ópera, a música não ficou unicamente relegada a polifonia do contraponto da escola secular, e isso revela a imediata popularidade que obteve essa nova forma. No fim do século XVII se estabeleceram diversos teatros de ópera em várias cidades da França e da Itália. Os centros de atividades no campo da ópera se concentraram em Viena e Hamburgo, sendo um dos teatros mais antigos da Alemanha o da cidade de Bayreuth, a pequena cidade que mais tarde seria famosa pela construção do teatro para as festividades dos dramas de Richard Wagner.
Na Itália, três cidades contribuíram grandemente para o desenvolvimento da ópera. Roma aperfeiçoou os Coros, Nápoles o "bel canto", ou seja, a arte de cantar e Veneza a parte instrumental.
A escola mais importante foi a de Veneza, onde podemos dizer que surgiu o primeiro gênio da ópera, Monteverdi (1567-1643). Monteverdi nasceu em Cremona e foi um dos primeiros membros da sociedade "Os Filarmônicos de Bologna", a qual realizou notáveis progressos na arte musical e contribuiu com o crescimento do drama lírico com suas duas óperas "Ariana" e "Orfeo". Em "Orfeo" (1607), Monteverdi escreveu o primeiro dueto. Em 1634 introduziu nos violinos da partitura de "Il Combatimento di Trancredi i Clorinda" o trêmulo para descrever a agitação durante a cena do duelo e o pizzicato para representar os golpes das espadas.
Seu discípulo, Cavalli (1599-1676) aperfeiçoou o estilo de Monteverdi, agrupando várias vozes em duetos, tercetos e quartetos, e dando aos coros um lugar de importância secundária. Cavalli introduziu, também, os elementos cômicos. Contemporâneos de Cavalli, encontramos Carissimi (1604-1674), de Roma, que se distinguiu notavelmente nos oratórios. Seu discípulo Cesti (1620-1669), introduziu na escola veneziana o estilo do oratório de Carissimi. Só que o público já clamava pela forma implantada por Cavalli, e por isso Cesti dividiu a ópera em duas classes: A ópera séria e a ópera bufa. A ópera bufa deve distinguir-se da ópera cômica, produzida mais tarde na França, na qual o diálogo é falado. Na ópera cômica a ação não é necessariamente cômica, como podemos ver exemplos em "Les Deux Journées", "Carmen", etc. "O Barbeiro de Sevilla", de Rossini, é um exemplo de ópera bufa.
A ópera séria se apresentava muito elaborada, apresentando várias cenas diferentes, sem se importar com o efeito dramático, e a estas cenas se somavam grandes coros sem nenhuma razão também dramática. A orquestra era meramente um acompanhamento, trazendo, por vezes, como resultado algumas situações um tanto absurdas.
A ópera bufa era de caráter ligeiro e burlesco. Mantinha grande parte do efeito dramático, mas freqüentemente se convertia em vulgar e comum. O diálogo se mantinha por meio de recitativos, problema mais tarde resolvido com a introdução de árias, duetos e corais. Esse estilo de ópera se tornou muito popular em Nápoles, que dava aos cantores maiores oportunidades para exibir suas técnicas vocais.
Nessas óperas sempre havia seis personagens; três de cada sexo, todos amantes. Constavam de três atos, cada um terminando com uma ária. Um mesmo personagem não podia ter duas árias sucessivas, e nenhuma dessas árias poderia ter como sucessão outra da mesma classe. As árias principais se empenhavam para terminar o primeiro e o segundo atos. O segundo e terceiro atos continham cada um pelo menos um dueto para o herói e a heroína, mas não se encontravam trios nem números concertantes.
Stradella (1645-1681) empregou os métodos de Carissimi em todas as sua obras; mas a grande importância da Escola Napolitana se deve aos esforços de Scarlatti (1659-1725) que conecta a severa escola do contraponto e a escola livre do bel canto. Com Scarlatti a melodia adquire maior fluência e graça, e as árias tomam uma forma definida de recitativo e ária. Scarlatti passou a usar também a forma de Abertura. Os que seguiram os passos de Scarlatti foram: Porpora (1686-1766); Durante (1684-1755), que teve vários ilustres pupilos, incluindo entre eles Logroscino (1700-1763), o inventor do que se chamou concertante final. Piccini (1728-1800) desenvolveu ainda mais esta forma. Foi um dos compositores mais salientes da ópera durante o período de Glück em Paris.
Em Nápoles surgiu Pergolesi (1710-1736), que escreveu uma obra notável, "La serva Padrona"; Jommelli (1714-1785), chamado o Glück italiano; Galuppi (1706-1785), chamado "o pai da ópera bufa". Nessa época o maior expoente na ópera séria foi Bononcini (1660-1750).
O primeiro compositor alemão notável foi Händel. Suas primeira óperas foram escritas para Hamburgo mas no ano de 1706 seu mudou para a Itália, onde se dedicou ao estilo da Escola Italiana. Händel escreveu quarenta e duas óperas, mas mesmo com suas múltiplas belezas, há muito desapareceram do cenário musical. Händel viveu de 1685 a 1759.
A primeira ópera francesa foi apresentada em 1659, composta por Perrin (1620-1675), mas a Escola Francesa permaneceu estagnada até o surgimento de Lully (1632-1687). A maior parte de suas obras foram inspiradas nas obras de Molière. Em suas óperas, Lully procurava seguir o texto e adaptar as musicas com as obras, mas sem empregar árias, duetos ou adornos para ajudá-lo na linha musical. Rameau (1683-1764) seguiu as tradições de Lully, mas como possuía um conhecimento mais amplo do lado técnico de sua arte, deu à orquestra um método todavia mais rico e original de tratamento, introduzindo muitos novos efeitos, realmente originais. Mas a grande importância de Romeau está na influência que sua música exerceu sobre Glück.
Glück (1714-1787) foi o primeiro reformador do drama lírico. Ele nasceu na Áustria, perto de Viena, mas seus primeiros estudos das formas operísticas se deu na Itália. Depois de obter considerável fama na produção de óperas italianas convencionais, foi para a Inglaterra. Mas não satisfeito com as condições lá existentes para a ópera e compreendendo que necessitava de maiores estudos, resolveu visitar Paris, onde se sentiu muito atraído pelas obras de Romeau. Ao voltar a Viena se dedicou novamente a sérios estudos, tendo sempre em mente o desejo de estabelecer uma relação mais íntima entre a música e o drama. Em 1762 estreia "Orfeu", ópera em que coloca em jogo muitas de suas teorias. Mas somente com a produção de "Alceste", em 1767, que ele passou a ser considerado um dos principais compositores de drama lírico do mundo. No prefácio de "Alceste", Glück admite que estes princípios são as idéias fundamentais sobre as quais se formou o drama lírico e declara que serão a base para todas as próximas óperas.
"Quando resolvi compor a música para "Alceste", minha intenção foi despojá-la de todos aqueles abusos que, ou pela vaidade dos cantores ou pela excessiva indulgência por parte dos compositores, há muito tempo estão desfigurando a ópera italiana, transformando um espetáculo maravilhoso e pomposo em algo ridículo e tedioso. Eu quis reduzir a música a sua verdadeira função, qual seja a de ajudar a poesia a expressar as emoções e as situações do tema, sem interromper a ação com ornamentos inúteis e supérfluos..."
Depois vieram Mozart, com suas óperas notáveis: "O Rapto do Serralho", "As Bodas de Fígaro", "Don Giovanni", "Cosi fan Tutte", "A Flauta Mágica", etc. Com von Weber (1786-1826) inicia-se a ópera romântica alemã. Em "Der Freischütz" ele oferece ao povo alemão sua primeira ópera nacional. Os dois grandes contemporâneos de von Weber na Alemanha foram Spohr (1784-1859) e Marschner (1795-1861).
O século XIX marca o passo mais gigantesco para a ópera e o surgimento dos maiores compositores musicais, cujas obras continuam mantendo seu lugar nos mais variados teatros do mundo inteiro.
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