São Paulo, 05 de Junho de 2004
|
Qual o significado da guerra? Por Douglas E. Lima * douglaslima3@yahoo.com.br
|
|
Primeiramente busquemos analisar o fator que nos parece ser mais evidente como razão da guerra a primeira vista: o petróleo. Sabe-se que toda a riqueza que gira em torno do Iraque provém do seu petróleo, após o embargo sofrido desde 1991 devido a Guerra do Golfo, o comércio iraquiano ficou ainda mais restrito,e hoje, até mesmo para adquirir alimentos, o governo o consegue em troca de petróleo, o que reflete como a população deste país encontra-se carente de bens básicos para a subsistência. Enfim, mesmo sendo um país que vive nestas condições, o Iraque é quem praticamente lidera a exportação de petróleo para boa parte do mundo, uma vez que produz 11% do petróleo que há em todo planeta, ou seja, capta desta forma muito dinheiro e muito inveja por tratar-se de um país quase que esquecido num canto desértico do mundo, e irritação de ferrenhos liberais democratas em saber que este país é regido por um regime ditatorial e opressor, o que contraria os princípios do mundo ocidental. Diz-se que para o governo americano, é economicamente muito mais vantajoso comprar os barris de petróleo que são cotados em dólar, ao invés de produzi-los, o que descarta a idéia de que americanos e britânicos irão tomar a indústria petrolífera iraquiana, uma vez que até o próprio Primeira Ministro Britânico Tony Blair já garantiu que o petróleo iraquiano será garantido ao seu próprio povo. No entanto, a maior dúvida sobre isto, é saber até onde é realmente verdade, sendo que o atual presidente americano George W. Bush é proprietário de uma indústria petrolífera americana, e tem aí de forma não oficial uma oportunidade de ampliar os seus negócios. E é justamente neste ponto que entra o segundo ítem de nosso questionamento: Saddam Hussein, numa estratégia econômica altamente inteligente, simplesmente converteu a venda de seus barris de petróleo ao invés de dólar para euro, a moeda corrente da comunidade européia. Porém, este não é um fato tão simples quanto por ventura possa parecer, se analisarmos a fundo, perceberemos que esta estratégia de Saddam pode trazer muito mais prejuízos financeiros para os E.U.A do que os prejuízos causados com a queda das duas torres gêmeas, e porquê? Simplesmente porque isto pode vir a fortalecer ainda mais o euro, podendo torna-lo a médio-longo prazo uma moeda muito forte, e conseqüentemente quebrar a hegemonia da moeda americana e tudo que gira em torno dela, o que faria com que muitos países comprassem euro, só para então comprar o petróleo, o que poderia iniciar um grande aquecimento na economia da comunidade européia, e diga-se de passagem que é este um número um tanto quanto que considerável. Ao observar os acontecimentos ocorridos nos últimos dois meses no cenário político internacional, veremos que tais fatos distanciam-se de ser uma grande coincidência. E para concretiza-los como prova, basta levantar algumas questões, como por exemplo: Qual foi o primeiro país a dar total apoio ao governo americano em sua investida na invasão ao Iraque? E agora levanto uma segunda questão: Qual a moeda britânica, o euro ou o dólar? Respondo eu novamente, nenhuma das duas, a moeda britânica é a libra, e o fortalecimento do euro na comunidade européia parece não interessar à coroa da rainha, pois não influiria em nada para o governo britânico, sendo este não integrante dos países europeus que compartilham do Euro como moeda corrente. Então o que parece mais satisfatório para o Primeiro Ministro britânico é continuar dando apoio aos E.U.A., para como diria Maquiavel sustentar a idéia de poder, pois trata-se de dar apoio a hegemonia, o que de certa forma parece dar aos ingleses um certo ar de igualdade de potências, distinguindo-os dos demais. Neste mesmo cenário, levando a minha terceira questão: Quais são os dois países que encabeçam o fortalecimento da moeda da comunidade européia? França e Alemanha, e vejam vocês senhoras e senhores, ou se preferirem "Lordes e Ladies", foram também estes dois países um dos primeiros que oficialmente vieram a recriminar a ação anglo-americana no Iraque. Pergunto então, parece tudo isto ser uma grande coincidência? E neste contexto de guerra, muitos assuntos até então esquecidos ou não comentados começam a ser descobertos a fim de defender os auto-interesses. Em uma nota de Bill Getz, divulgada no jornal americano The Washigton Times, o jornalista descreve uma informação que a CIA teria apresentado, que resumidamente seria o seguinte: Uma compania francesa não divulgada, teria ilegalmente vendido para o Iraque componentes de jatos e helicópteros militares, já há alguns anos, mesmo sabendo que é este um ato totalmente proibido por tratar-se de Iraque que sofre embargo econômico desde a Guerra do Golfo em 1991. A França teria com isso um débito estimado em 4 bilhões de dólares a receber do Iraque, contabilizado a venda dos componentes militares mais alguns projetos de infra-estrutura. O governo francês nega tais informações, com isso levantam-se duas possibilidades, pode esta informação ser um fato realmente verídico, ou pode ser esta uma jogada de estratégia política do governo americano a fim de fortalecer a legitimidade de sua ação se é que realmente exista alguma, e enfraquecer com isso a defesa de um de seus maiores opositores diplomáticos para a intervenção militar. Para quem procura observar estes acontecimentos políticos ocorridos no cenário internacional de forma analítica, pode perceber que os interesses econômicos e políticos postos em questão com os desarranjos da guerra, são no mínimo interesses de grande porte para os Estados envolvidos direta ou mesmo indiretamente. O terceiro ítem a ser analisado como fator beligerante, seria uma grande estratégia geopolítica americana. É do conhecimento de todos que o único lugar no mundo onde os E.U.A. ainda tem acesso restrito tanto de forma política, econômica quanto fisicamente, no que se refere a bases militares, é ainda no Oriente Médio, salvo algumas exceções como Arábia Saudita que mantém relações estreitas devido ao petróleo e alguns outros bens de caráter natural, o Kuwait que se tornou base americana com a Guerra do Golfo, e em especial Israel que é um Estado protegido pelo governo americano por motivos que podemos destacar dois como principais; primeiro, o Estado de Israel foi oficialmente formado com o aval da ONU e por esse motivo é um Estado com abertura aos Estados Ocidentais que apoiaram-no pelo menos politicamente. Segundo, os maiores bancos e empresas de Wall Street são pertencentes a judeus, que desta maneira torna Israel amigo número um do governo americano. No entanto, se os E.U.A. conseguirem efetivamente desmantelar o governo iraquiano, e assim construir um novo governo com características ocidentais democráticas, certamente o Iraque irá tornar-se mais um parque para instalações militares americanas, que será de muita importância estratégica no Oriente Médio, aumentando significativamente desta forma seu poder geopolítico, pois o Iraque através de Saddam Hussein possui forte influência sobre o mundo muçulmano, principalmente sobre a Palestina que vive em constante conflito com Israel. O presidente americano vem com isso apresentando como causa da invasão, a queda de um governo ditatorial e o desarmamento do mesmo, que vem produzindo armas químicas e biológicas, o que estaria desrespeitando resoluções da ONU que proíbem o desenvolvimento de tais armas. Sendo então este o motivo da guerra, não teria o governo americano muito mais motivos para derrubar por exemplo o governo norte-coreano, que declarou abertamente a quebra do acordo de não proliferação de armas de destruição em massa, levando a frente o estudo e desenvolvimento de urânio, o reacionamento de usinas nucleares que estavam desativadas e a eminente produção de bombas nucleares? Se à frente de todas as justificativas americanas apresentadas para a invasão, está algum motivo que não tenha qualquer fundo de interesse econômico em particular, como a expansão da democracia por exemplo, primeiramente devemos nos perguntar de que tipo de democracia estamos falando. Estamos porventura falando de uma democracia que vem a muito tempo sendo pregada pelo governo americano que ostenta orgulhosamente e que se auto-intitula a nação mais democrática que existe no mundo, com a mais ampla liberdade de expressão? Pelo menos esta tal liberdade de expressão não é o que temos visto nos últimos noticiários não só nos EUA como em outras várias partes do mundo, onde os grupos de pacifistas foram fortemente reprimidos duramente por suas polícias locais, o que nos lembra em certos momentos os regimes militares. Mas pelo menos teoricamente o discurso é plausível, porém não é isto o que está acontecendo ultimamente. Temos visto um sistema democrático que oprime os mais fracos, onde a frente de qualquer discurso está algum interesse financeiro e não simplesmente a boa ação de querer ajudar para que haja um desenvolvimento da qualidade de vida em todo os países. O que temos assistido no cenário internacional, é um sistema democrático que simplesmente ignora países pobres como os da África subsidiária, onde as pessoas morrem por não terem um prato de comida em sua mesa, com a desculpa de não terem meios para fazer algo de efetivo para os ajudar, mas em contra partida em questão de algumas poucas semanas conseguem realizar uma mobilização monstruosa para uma ação militar de seu interesse, e por acaso você já tentou imaginar qual deve ser o valor monetário que estes países tiveram que dispor para a realização deste conflito? Será que com esses valores não se poderia dar algum início efetivo a uma ação internacional que vise alguma benfeitoria para os países desfavorecidos? Não temos visto uma mobilização e boa vontade democrática em fins que visem uma mesa de discussões para que sejam postos em pauta e colocados em prática assuntos que possam vir a trazer algum benefício a tantos países, blocos e sistemas que necessitam de muito mais urgência de uma ação política internacional, do que a morte de alguns civis iraquianos que terão que pagar o preço da guerra. Não importa se o governo americano disser que só morreu um civil ou mil civis, o preço de uma vida não pode ser comparado seja a quantos barris de petróleo for. Esta deturpação da democracia que vem sendo movida pelo presidente americano George W. Bush, não respeita nem mesmo as resoluções da ONU sendo este um órgão que o próprio Estado americano ajudou a criar para a preservação da paz, e não dá o mínimo de importância para a soberania de um Estado em seu próprio território, e assim fazer com que seus interesses venham a prevalecer a qualquer custo. Isto é democracia nas relações internacionais? Quem é o verdadeiro ditador, Saddam Hussein dentro de seu Estado, ou George W. Bush no cenário internacional utilizando-se do privilégio de ser uma hegemonia econômica e militar? Porventura teriam os Estados Unidos esquecido de como conseguiram conquistar a liberdade para a sua própria nação? Não foi através da intervenção de um Estado alheio que não conhecia sua cultura e não respeitava suas opiniões, foi através de uma ação interna que veio a ocorrer devido ao amadurecimento político da população que sentiu a necessidade de liberdade e a vontade de tornar-se uma República. No entanto, o que se evidencia no sistema mundo, é o esquecimento de passagens históricas que criaram nossos valores de civilidade e política, e o desrespeito a órgãos os quais nós mesmos do mundo ocidental formamos para a preservação da paz, pois a própria história se cansou de tão repetidas guerras, uma vez que a própria história tem nos ensinado quais são e quem é que realmente sofre as conseqüências de uma guerra. E a verdade? A verdade que queremos saber, provavelmente nunca chegará ao nosso conhecimento, pois como diria Philip Johnson em 1917 "Numa guerra, a primeira vítima é a verdade".
|
| *Douglas E. Lima é bacharelando em Relações Internacionais pela UniCapital |
| Quer fazer algum comentário sobre este artigo? Escolha uma das opções abaixo e deixe sua opinião, crítica ou sugestão. |
| Outros Artigos do Autor |
|
|